faz-te à vida.


Esperas a perfeição. O momento em que se conjuguem todas as condições. Em que haja silêncio – lá fora e aí dentro. Em que não apareça ninguém. Em que o dia esteja reservado só para ti, e que nenhuma inquietação te perturbe. Que a atenção se faça plena e que, para isso, te possas rodear dos teus ingredientes essenciais: da Callas ou do som do mar, do café curto ou de um chá de menta, da mesa vazia e da luz certa. Da inspiração. Caso contrário, não vale a pena, não vai sair bem. Não (te) VAIS sair bem.

É disso que se trata, não é? Pensas que és tu inteira que estás em cada coisa que fazes. E se falhares, ou se ficares aquém da (tua) expectativa, és tu toda mereces ser posta em causa. Porque és tu que falhas.

Mas, por um momento, desiste de procurar a perfeição: não és perfeita. E se o que fazes não ficar perfeito, não tem mal. Tu continuas a ser a mesma. Com a diferença de que agiste, de que apareceste. De que tentaste. E os outros também continuam os mesmos – os próximos e os distantes. Os que gostam e os que não se manifestam.

Então, senta-te agora, ao lado desse bebé que dorme. Experimenta escrever em cima da cama e não na mesa. No silêncio, sem a tua música. Na penumbra para não o acordar e sem mar ao fundo. Procura dentro de ti o que queres dizer e di-lo, simplesmente. Esse é o exercício mais difícil e também o mais importante. Escreveres o que queres dizer, sob o olhar dos outros – se ele existir, aceitando-o plenamente.

O instante da perfeição não vai aparecer e não há um dia perfeito para começar. Aceita a incompletude, a imperfeição, os limites do que controlas e o mistério do que não sabes - ainda. Aceita a vida, inteira, e faz-te a ela. Sem mais demoras.

Diz a inspiradora Brené Brown que "por vezes, a coisa mais corajosa e mais importante que podes fazer é simplesmente aparecer".


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